A MODA DA REALEZA NO FILME “MARIA ANTONIETA”: OS ESPARTILHOS E O FIGURINO

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Ao longo da história, a moda tem influenciado o cinema, Mas, hoje em dia, a moda está muito presente. Então a moda influencia o cinema e é uma troca contínua”.

(Milena Canonero, costume designer)

 

O filme Maria Antonieta (2006), dirigido por Sofia Coppola se baseou no livro de Antonia Fraser (1932), sobre a Rainha Maria Antonieta (1755-1793). Biógrafa e escritora, Fraser é a segunda esposa do dramaturgo Harold Pinter.

O filme conta a história de uma garota austríaca, de 14 anos, que vai para o palácio de Versalles, na França para virar a Rainha, como esposa de Luís XVI. A primeira cena já fornece uma dica interessante que, no meio do caminho, ela precisa trocar de roupa para pôr uma veste mais adequada à sua nova situação social. Na verdade, Maria Antonieta é uma estrangeira que chega num novo lar, longe de casa e acaba sentindo-se muito sozinha, apesar de estar sempre acompanhada de seu staff de fofoqueiros e de um marido insosso e ausente. Neste caso, não foram felizes para sempre. A consequência deste casamento é que a rainha, imersa na solidão, se acaba nos doces, em plena realeza francesa e sem conseguir gerar um herdeiro.

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A solidão de Maria Antonieta (Kirsten Dunst)

 

Neste falso corpo de heroína, com lindos vestidos e plumas, engana quem a vê exuberante. As roupas luxuosas são de tecido francês, mas que encobre o corpo de uma rainha solitária. A partir daí, ela  se cobre de joias, adereços, perucas espalhafatosas, bem no estilo do rococó.

No filme, o marido demorou muito para consumar o casamento com a rainha, o que poderia provocar a anulação do casamento, caso nada fosse feito.

 

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Figurino de Milena Canonero

O filme recebeu o Oscar de melhor figurino, assinado por Milena Canonero, uma das mais importantes costume designers dos EUA.

 

 

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A rainha bela e solitária

 

O vestuário e acessórios são baseados nas cores de rosa, azul, verde e amarelo. Tons pálidos como a vida desta personagem. Os vestidos cobrem várias camadas de saiotes para dar volume ao vestido, juntando-se com o espartilho, que aperta e oculta o seu corpo jovem.

Segundo pesquisadores, Maria Antonieta não usava maquiagem e também não passava tintura nos cabelos, naturalmente loiros, que dá o tom do fim do século XVIII. (Faux, 2000, p. 62)

 

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Maria Antonieta não pintava os cabelos

A Belle Époque na França e o espartilho:

cintura fina!

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Vestido da Belle Époque

 

 

O período de 1895 a 1914, mais conhecido como a Belle Époque na França distinguia-se pelo esplendor e opulência. Embora surgida como um incontestável modismo, a Belle Époque se banhava na nostalgia. A bela época em francês foi um período dourado para a classe alta, o que se refletiu em moda e estilos exclusivos de uma minoria. As mulheres vestiam roupas luxuosas e românticas, com silhueta em forma de “S”, moldada com o apoio de espartilhos.

 

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O espartilho sinônimo de sofrimento

 

A Belle Époque assistiu o triunfo da mulher-flor, cingida num espartilho que apertava a cintura ressaltando seios e nádegas (...) Os chapéus usados eram símbolos de status social, só as operárias saíam de “cabeça descoberta”. (Faux, 2000, p. 84)

 

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Maria Antonieta e e a moda dos chapéus

O efeito peito-de-pombo!

 

O peito de tal forma mais parecia uma prateleira, considerando os laços, flores, renda, tudo muito exagerado. Mas era a moda do momento.

 

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Maria Antonieta e o peito pomba

Diferenciando-se de suas predecessoras vitorianas por uma silhueta relativamente estreita e estatura física maior, a mulher eduardiana exibia o busto “peito-de-pombo”, com quadris empinados para trás, criando uma acentuada curva em “S”. (Mackenzie, 2010, p. 66)

Na “Revista Doméstica das Mulheres Inglesas” incitava-se a repressão dos quadris: “Se quer que uma rapariga cresça amável e feminina, nas suas maneiras e sentimentos... ate-a fortemente”. (Faux, 2000, p. 85)

 

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Mulher inglesa e o espartilho

Segundo a autora, os excessos do espartilho, sobretudo na Inglaterra, causaram muita dor. Os desmaios descritos na literatura da época são da responsabilidade de uma peça de vestuário que, apertada em excesso, mal deixava espaço para respirar, quanto mais para os movimentos.

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O espartilho impedia os movimentos

 

Algumas mulheres ajustavam-no tanto que acabavam com feridas debaixo do braço, porque a peça afinava o torso feminino, acentuava a cintura, levantava o peito e causava deformações na estrutura óssea. Já no século XIX e nas primeiras décadas do século XX, os espartilhos viveram o seu apogeu chegando a ser quase tão indispensáveis como os sapatos.

 

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Coleção de sapatos no filme Maria Antonieta

Nessa época, usavam-se muito as anquinhas, na França. Era uma armação de pano sustentada por barbatanas para enchê-las. Consumiram-nas tanto que se criou uma companhia baleeira na costa do Estado francês.

 

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Napoleão Bonaparte usava espartilho

 

O espartilho impôs-se a tal ponto e eram tais os apertos em que as mulheres se viam submetidas, que Napoleão deixou para história, entre o seu repertório, a seguinte frase: “O espartilho é o assassino da raça humana”, talvez enquanto metia mão, entre os botões da camisa para soltar um pouco o seu.

Com a Revolução Francesa (1789) influenciada pelos ideais iluministas e da independência norte-americana é considerada o berço do feminismo moderno. E um avanço se deu no vestiário e os espartilhos se tornaram menos rígidos e mais flexíveis, no século XVIII. (Nazareth, 2007, p. 28)

Nas fábricas proibia-se o uso do espartilho pelas trabalhadoras. As sufragistas (mulheres à favor do direito do voto feminino) advogaram também a abolição desta peça e pouco a pouco, o seu uso, antes quase universal foi desaparecendo.

 

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Mulher de Corselet – Toulouse-Lautrec (1896)

 

A queda definitiva do espartilho só foi possível por uma questão prática, com a chega da Primeira Guerra Mundial, as mulheres tiveram de substituir seus maridos na linha de produção das fábricas, uma vez que os homens estavam nos campos de batalha. Trabalhar usando espartilho, durante 13 horas por dias, inclusive aos domingos, provou ser uma tarefa impossível. A contratação de operárias acabou reduzindo o número de empregadas domésticas, o que provocou a mudança de hábitos também na alta sociedade. As damas burguesas abandonaram a lingerie porque não tinham quem amarrasse o espartilho nas costas.

 

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Espartilho com botões

 

Mas, as damas que buscam a beleza do corpo hoje sabem que o espartilho nunca saiu de moda.

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Beyoncé e o espartilho revisitado

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Cartaz do filme “Maria Antonieta” na versão de 1938

Referência bibliográfica:

1) FAUX, Dorothy Schefer. Beleza do Século. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2000.

2) MACKENZIE, Mairi. ...Ismos para entender a moda. São Paulo: Globo, 2010.

3) NAZARETH, Otávio. Intimidade Revelada. São Paulo: Estúdio Substância: Olhares Editora, 2007.

Ficha técnica do filme:

Título: Maria Antonieta

Roteiro/direção: Sofia Coppola

Ano: 2006

Gênero: drama

Paises: França, Japão e EUA

Figurino: Milena Canonero

Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Steve Coogan, Judy Davis e Asia Argento.

Imagens/livro:

MACKENZIE, Mairi. ...Ismos para entender a moda. São Paulo: Globo, 2010.

LANDIS, Deborah N. Dressed: a century of Hollywood costume designer. N. York, 2007.

Site consultado:

www.google.com

Comentários

Mari Ramondini disse…
Adoro este assunto, o filme mereceu o Oscar de melhor figurino por este belíssimo trabalho assinado por Milena Canonero.
Vale a pena dar uma espiadinha no trabalho do estilista Paul Poiret, que em muito colaborou para queda do espartilho no início de século XX.
Mari Ramondini.

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